Os que viveram em Maragojipe nas décadas de 50 a 70 por certo se lembram muito bem dos bons tempos da Associação Atlética Maragojipana. Um clube social que fez história e integra a memória de nossa terra, onde reinou imponente em pleno centro de...
Os que viveram em Maragojipe nas décadas de 50 a 70 por certo se lembram muito bem dos bons tempos da Associação Atlética Maragojipana. Um clube social que fez história e integra a memória de nossa terra, onde reinou imponente em pleno centro de Maragojipe por muitos anos, a partir de sua fundação, em 16 de março de 1952, com memoráveis festas e bailes de carnaval.
(http://www.ufrb.edu.br/linkreconcavo/2009/02/05/carnaval-de-maragogipe-vai-virar-patrimonio-imaterial-da-bahia/)
A partir dos anos 90 o clube entrou em declínio e passou por um abandono generalizado, em processo acelerado de degradação e ruína. Caminhava para se tornar mais um patrimônio fadado a se transformar em mais um monte de entulho, assim como aconteceu com os imóveis das fábricas de charutos Suerdieck e Pimentel. Reconheço que a Fundação Vovó do Mangue teve e tem um papel relevante na sua recuperação, mas preservar o símbolo e a memória da associação e reativar seu cunho social se impõem
O sábado no Porto prometia. As portas da venda de meu avô Agnelo Laranjeira, dos armazéns de Xaxá e Memeu da Cruz e da Padaria de Baião ficavam apinhadas de cavalos e bois de montaria. Maragogipe é um dos poucos lugares onde se monta em boi. Eles...
O sábado no Porto prometia. As portas da venda de meu avô Agnelo Laranjeira, dos armazéns de Xaxá e Memeu da Cruz e da Padaria de Baião ficavam apinhadas de cavalos e bois de montaria. Maragogipe é um dos poucos lugares onde se monta em boi. Eles são “equipados” com dois “panacum” onde se carrega a produção da roça para as feiras do Areal ou do Cajá, e na volta para a roça, vão carregados de carne verde, charque, sal e açúcar, além da pinga e do fumo de corda, que tabaréu nenhum é de ferro.
A Praça do Porto não era muito grande. Não era sequer uma praça, mas um largo com um porto de atracação de saveiros que, com a quase extinção dos saveiros, deu lugar a uma praça. Nos dias de feira na cidade – quinta e sábado – o Porto era um rebuliço só, pois o comércio de secos e molhados ali era forte e onde podia se achar de tudo, inclusive uma oficina de consertos de relógio que ficava no armazém de meu avô.
A Praça era e ainda é em forma de um quadrado. Do lado das ruas General Pedra e do Estadual ficavam o armazém de Memeu da Cruz (hoje uma Igreja Evangélica), a padaria de Baião e o armazém de meu avô Agnelo (hoje uma Lan House de meu Primo Fernandinho – “Prego”). Do lado da Ladeira do Saboeiro e da Avenida de Damásio ficava a casa de tia Pequena, irmã de minha avó Lilita e de tia Losinha. No extremo oposto ficavam a rampa de atracação dos saveiros, a Usina de Energia e a ponte que ainda liga o Porto ao Porto das Vagas e ao Bairro da Comissão. Naquela época o único caminho para o Arraieiro, o Estádio da Glória, o Matadouro, a Ilha de meu avô e o cemitério local – de muitas estórias.
Não raro nos finais das tardes de sábado ocorriam brigas homéricas na Praça do Porto entre o pessoal da roça e os da cidade, por conta da bebedeira de muitos deles. Por conta disso eu aproveitava para bulir com Tonha de Na Pomba, uma senhora idosa e muito pobre, fervorosa na fé católica, quase beata. Ela sempre ia à venda no final da tarde para comprar incenso e os restos da carne de porco de barriga, quando o preço caía bastante.
- Tonha, não vá incensar demais sua casa e despachar os diabinhos aqui para a porta da venda. É por isso que todo sábado aqui tem briga. Veja lá! Não vá me soltar nenhum capeta.
- Seu herege arreliado! Vou falar com Agnelo para lhe dá um corretivo e lhe mandar se confessar com Padre Florisvaldo. Só porque é da Bahia pensa que pode mangar de Deus!
Era um sábado diferente. Nesse dia, Jorge “Estrela”, José Lacerda e Geraldo Nobre estavam mais eufóricos do que o normal. Tudo por conta da notícia divulgada na Besteira, que Gutinha, meu primo, trazia nas mãos e lia num frenesi danado, imitando a voz de Joca, locutor oficial de Maragogipe. Figura mais pitoresca que Joca só mesmo Rubem Tremedeira, um fotógrafo que mesmo tremendo-se todo conseguia tirar fotos de extrema qualidade com sua Rolleiflex 2.8 FX.
- Maragogipe não é nenhuma Pamplona, mas tem suas touradas para dar o que falar. –
Comentava Gutinha ao ler a manchete da Besteira.
- Menos, Gutinha, menos – disse Jorge. – Pare de falar emproado. Que estória é essa de Pamplona?
- Ó, biltre, está aqui na primeira página da Besteira, quer dizer, na frente, ou melhor, na única. Droga! O que importa é a notícia! Vai chegar uma boiada com mais de 40 cabeças para o Matadouro da Comissão!
- Dá isso aqui, seu mentiroso debochado. Isso só pode ser coisa de Nelinho. Ele não tem o que fazer e vive escrevendo mentiras nesse pitoresco jornaleco de uma página só. Passe já esse panfleto para cá – disse Jorge, pegando o jornal e então se dirigindo a Geraldo, que ouvia a discussão. – Pô, Geraldo, não é que é mesmo! Olha só, é uma notícia grande! Tem até a procedência do lote. Vem de Feira de Santana.
Meu tio Geraldo faz cara de espanto. - Não acredito! Deixa eu ver, Estrela. Não é que é mesmo! Corre Gutinha, avisa Nando, Zeca, Nelinho, Dido e Renato. E não demora! A essa altura a boiada já deve estar nas Palmeiras.
Jorge, então, vira-se para Gutinha - Você não está metido nessa mentira, está?
- Qual nada, Jorge! Nós vamos ter hoje a maior boiada que Maragogipe já viu. Não duvide, Pamplona é aqui.
Ah, e foi mesmo! Lá pelas cinco da tarde a boiada despontou compacta na Praça da Promessa, tinha pra mais de 40 cabeças, cercada por mais de 10 vaqueiros. Passou em disparada pela frente da casa de “Miúda Piolho de Porco” – um dia ainda falo dela, uma doente mental que implicava com Renato – e entrou no Porto em bloco. Cada touro mais lindo do que o outro. Com chifres enormes e porte audacioso. A meninada e os rapazes em bando já esperavam prontos para fustigar e provocar os animais. Os vaqueiros tentavam a todo custo controlar os bois fazendo-os passar pela ponte para ir para o Porto das Vagas. Não dava mais. Alguns bois mais nervosos e valentes investiam contra a turba provocadora. Nando, Geraldo e Renato, a essa altura já descalços, corriam pelo meio da boiada provocando os animais mais ferozes que corriam a esmo e invadiam as vendas e se desgarravam subindo a Ladeira do Saboeiro e descendo pela Avenida de Damásio.
Depois de fazer a alegria da meninada e dos marmanjos, os vaqueiros – acho que eles mesmos provocavam a boiada – enfim conduziam os animais para o matadouro da Comissão. Mas nem sempre todos os animais eram encontrados. Alguns se desgarravam e só iam ser achados na Enseada ou no Caijá. Muitos caíam da ponte e era uma festa a perseguição pelo manguezal. Nesse dia um boi preto, grande e com chifres enormes, da raça Gir, desapareceu como que por artes daquele que Ronca e Fuça, que depois dos incensos de Tonha de Na Pomba por certo vinha esbaldar-se e arreliar na esquina da venda.
Era o mês de junho, e se festejava o Santo Antonio, Padroeiro da Filarmônica Terpsícore Popular. Nesse dia havia um bingo organizado para angariar fundos para a festa, com vários prêmios, dentre eles o festejado LP Detalhes, de Roberto Carlos.
Passada a tourada fomos para casa – a dupla, eu e Geraldo – nos aprontar, jantar e depois sair para o bingo da Terpsícore Popular. Meu avô queria matar a gente, mas minha avó contornava a situação, livrando a nossa cara. No fundo, meu avô se divertia e ria muito com as nossas travessuras.
Era por volta das oito horas da noite quando chegamos na Praça em frente à Prefeitura. Toda a patota já estava lá. Benedito Cusparada fazia um discurso – mais um – contra a candidatura de Chico do Boi, da Arena. Jorge e José Lacerda – também repórteres da Besteira – comentavam sobre as notícias de mais um entrevero entre os alunos da UFBA e a Polícia Militar na Rua João das Botas, em frente à Reitoria e próximo do Bar Avalanche, em Salvador. O assunto estava na pauta da Besteira.
De onde estávamos, em frente à loja de Bento, dava para ver a Terpsícore e ficar de olho quando Joca fosse começar a cantar o bingo, o que só veio a acontecer por volta das nove horas da noite.
O bingo ia animado quando Joca, com a voz mais empolada que o habitual, cantou: TRINTA E DOIS, LÁ VEM O BOI! Ninguém entendeu nada. O silêncio tomou conta da frente da Terpsícore. Ninguém marcou a pedra. De repente, da ladeira do Bar de Ariston, o trote de cascos no paralelepípedo se fez ouvir com força e cada vez mais perto. Um vulto negro na luz difusa de Maragogipe adentrou em frente à Terpsícore. Era o boi preto desgarrado da boiada da tarde que entrava pelo meio do bingo em desabalada carreira. Não sobrou um vivente! Foi cartela e pedra de bingo para todo o lado!
Geraldo, Jorge e Gutinha a essa altura já tinham tirado os sapatos e marchado para cima do bicho. Eu, Benedito, Messias e José nos escondemos na farmácia de Plínio. A multidão em debandada não sabia para onde ir. Na confusão, Dido perdeu os óculos e ficou parado no meio da praça. Estático, paralisado pelo medo. Era a farra do boi de volta. O animal passou pela praça investindo contra todos. Em fuga, desceu ao lado da cadeia, em direção à Rua Nova. Uma multidão foi atrás. Não se sabe de onde, surgiram dois vaqueiros a cavalo também na cola do bicho arisco. A corrida varou a noite. Chegamos em casa mais de meia noite com meu avô esperando a gente no corredor. A bronca foi grande. Geraldo torceu o pé e quase não andava.
No dia seguinte, a Besteira estampou na capa: 32, LÁ VEM O BOI!. E Joca virou o locutor mais famoso da Região.
Nem a Radio Vox de Muritiba, cujo locutor se gabava de falar de Muritiba para o mundo, tinha um locutor igual
Ir ao Cinemark no Salvador Shopping virou uma tortura. Nem Kafka teria pensado algo igual.
A começar pela compra dos ingressos. Os poucos terminais de auto-atendimento estão sempre quebrados e com enormes filas. Os caixas – apenas a metade f...
Ir ao Cinemark no Salvador Shopping virou uma tortura. Nem Kafka teria pensado algo igual.
A começar pela compra dos ingressos. Os poucos terminais de auto-atendimento estão sempre quebrados e com enormes filas. Os caixas – apenas a metade funciona – ficam na extremidade oposta à entrada das salas de sessões, com filas homéricas, desorganizadas e sem troco.
Superado essa tortura na abarrotada praça de alimentação – pessimamente situada em frente ao cinema e caixas – outra maior ainda espera o cinéfilo a essa altura estressado: entrar no cinema. Como fazê-lo se não há indicação das filas de acordo com as salas de exibição? Os expectadores vagueiam desorientados a perguntar a uns e outros que fila é aquela em que estão, pois não há ninguém que possa ajudá-los, pois os poucos empregados apenas recolhem os ingressos, não sabem sequer informar onde e quando se formará a fila para qualquer sessão ou sala de exibição. Assim, só mesmo sendo um Sherlock Holmes para descobrir qual a sua sala e poder, enfim, assistir em paz o seu filme. Em paz? Ledo engano! As salas de sessões – que mais se parecem com refeitório coletivo com gigantescas porções de hambúrgueres, refrigerantes e pipocas – estão em péssimo estado: sujas, mal cheirosas e com várias cadeiras quebradas.
Quando o filme é uma estréia que atrai um grande público, as filas para entrar nas salas dos cinemas se confundem com as filas das lanchonetes e dos caixas. É um horror, e o que era para ser apenas um momento de cultura e lazer vira o Inferno de Dante.
Como é que se pode tratar com tanto menosprezo o consumidor? Será que é tão difícil assim organizar filas com indicações claras e visíveis das salas e horários das sessões? Se não houver uma solução para esse abuso, só nos restará a recusa pura e simples em ser tratado como gado a caminho do matadouro
A inspiração é uma coisa difícil. Mais uma vez caminhava na orla – acredite, às cinco da manhã já estou saindo para andar – quando ela literalmente me encontrou no calçadão.
1970! ...
A inspiração é uma coisa difícil. Mais uma vez caminhava na orla – acredite, às cinco da manhã já estou saindo para andar – quando ela literalmente me encontrou no calçadão.
1970! O ano estava só começando. O MDB, com Cid candidato a prefeito, viria a vencer as eleições. Maragojipe era um caldeirão cultural – o nosso grupo, com certeza era. Gastávamos horas em debates e discursos exaltados e acalorados – pouco ouvidos, é bem verdade – contra a ditadura que perseguia o pensamento e calava os opositores pela força dos coturnos. Não éramos engajados em nenhum partido político ou grupo armado – perdemos a boquinha de hoje estarmos recebendo uma polpuda pensão por termos tomado uns cascudos de algum soldado perdido por aquelas plagas. Éramos na verdade defensores das liberdades: fosse qual fosse. Liberdade de imprensa – com A Besteira à frente –, de pensamento e de opinião, para podermos ler o Henfil e o Pasquim, e não só o FEBAPÁ, de Estanislau Ponte Preta!
As discussões políticas no senado varavam a noite – até as 22 horas, lembrem-se. Começávamos na porta de Bento, passávamos para o abrigo de Chichico, onde com o primeiro picolé da noite ameaçávamos os opressores, e terminávamos no Gato Preto, onde nos dispersávamos, já assuntos amenos e ao sabor de um picolé de abacate, que ninguém é de ferro.
E como ninguém é de ferro, Jorge Lacerda nos fez ver que o dia seguinte era domingo e já havíamos combinado um jogo de bola na Praia de Copacalama e um banho na ponte do Caijá. Assunto encerrado. Debandada geral.
O Cajá antes se chamava Caijá, segundo os mais velhos, coisa que eu não sou, por causa dos escorregões que as moças levavam nos paralelepípedos do calçamento. Nunca pude confirmar a veracidade dessa estória. O certo é que hoje se usa as duas grafias sem pudores linguísticos ou preocupações gramaticais.
Era lá, ao lado da ponte do Cajá, que ficava a “Praia de Copacalama” – trocadilho sarcástico com a badalada Praia de Copacabana. Hoje não existe mais, pois perdeu areia branca para ali trazida da Barra do Paraguaçu por saveiros, e o mangue cobriu tudo.
Era ali, na baía de Iguape, que com os amigos, tios e primos nós navegávamos e pescávamos, usando a prainha como campo de futebol. Eram férias inesquecíveis! As pescarias de canoa não faltavam, mesmo correndo o risco de ser posto para correr por meu avô assim que apontasse com os poucos siris, pequenos robalos e tainhas na porta da venda. Venda é modo de dizer. Meu avô tinha um grande armazém – empório – no Porto, ao final da Rua General Pedra. Foi lá onde aprendi a consertar relógio, fazer chouriça, vela e sabão. Naquele tempo não era ofensa um menor trabalhar...
Pois bem, fomos no dia seguinte ao ‘baba’. Como toda cidade do interior, também Maragojipe tinha pouca diversão. Aos domingos, portanto, íamos jogar bola na ‘Praia do Arraeiro’ ou na ‘Praia de Copacalama’, onde depois íamos tomar banho na ponte do Cajá. Nesse dia, o grupo era grande – meus tios Geraldo e Renato Nobre, meus primos Dido, Robertinho, Prego (Fernandinho) e Broxa (Paulinho), além de Tobias (falecido), Jorge Lacerda (Estrela), José Lacerda (Lacerdinha), Fefeu e Messias. A concentração era no bar O Gato Preto, que ficava em frente à Igreja Nossa Senhora de Nazaré e famoso pelo picolé de abacate – hoje o imóvel está totalmente decadente e quase ninguém se lembra do antigo bar.
Por volta de 11 horas da manhã o ‘baba’ havia terminado. Alguns de nós ficamos dando ‘caídas’ da ponte. Num desses mergulhos senti o peito do meu pé esquerdo ‘ralar’ no pilar da construção. De leve, não chegou nem a bater. De imediato a água – que ali é escura – ficou avermelhada. Quando levantei o pé vi que de um grande corte jorrava sangue sem parar. O pânico foi geral! Tobias, refeito, correu até o Gato Preto e conseguiu uma lambreta para me levar para a casa de Teotônio – enfermeiro e socorrista dos melhores, também já falecido – que ficava, na Rua Nova, Perto do Colégio Simões Filho.
O sangue não parava de jorrar. Chegamos à casa de Teotônio em poucos minutos – a cidade além de pequena quase não tinha carro. O mais visto era a Rural de Carlito Chofer. Segundo Teotônio, o corte foi provocado por uma casca de ostra presa no pilar da ponte. Teotônio levantou a minha perna para estancar a hemorragia, limpou e cauterizou o ferimento. Em seguida se preparou para ‘costurá-lo’. A essa altura a casa já estava cheia de gente. A notícia se espalhara rapidamente e o acidente ganhou grandes proporções de boca em boca. Nando e Jorge (meus Tios), sabendo do ‘grave’ acidente, foram para lá também. Meu avô, Agnelo Laranjeira – sempre ele – tinha mandado um recado curto e grosso: ia me mandar de volta para Salvador! Que tragédia! As férias estavam apenas começando e eu já ameaçado de sumária deportação, sem direito a defesa.
A plateia era grande. Estavam todos na sala e em volta de mim. Teotônio se aproximou solenemente com uma ‘enorme’ seringa nas mãos para aplicar a anestesia. Abriu o ferimento – acreditem, era grande, levei 12 pontos – com uma pinça e aplicou a injeção diretamente dentro do corte. Imediatamente parou de doer e no local ‘subiu’ uma bola enorme. De repente ouviu-se um baque surdo! Procuramos ver o que era e nos deparamos com um corpo estendido no chão. Era meu tio Geraldo, estatelado no meio da sala, suando e branco feito cera de velório. Desmaiou! Caiu no meio da sala na frente de todos! Foi o maior salseiro e vexame maior ainda. Teotônio largou o meu pé e minha perna despencou no chão. Correu para acudir Geraldo que não aguentara ver tanto sangue e desmaiou quando viu a aplicação da anestesia. Vejam só. Pensei que só as mulheres e moiçolas de Maragojipe eram chegadas a ‘um ataque’.
Durante alguns dias não se falou noutra coisa na cidade. Não fosse esse vexame de Geraldo, até que eu podia ter me safado da deportação. Mas o desmaio só fez aumentar a ira de meu avô. Sem poder andar, não pude ser deportado de imediato, mas por castigo fiquei uma semana inteira ‘internado’ no sótão da casa de meu avô. Era ali onde dormiam os homens solteiros da casa. Uma grade dava para o corredor e para o forro da sala principal. Logo acima da escada de acesso, as janelas davam para o telhado da sala de jantar, de onde avistávamos o quintal da nossa casa e das casas vizinhas de Marina e Magau, todos cheios de pés de abacate e carambola. A parede do sótão era coberta de pôsteres de time de futebol (Flamengo, Vasco e Bahia) e de mulheres de biquíni e com os seios de fora, que eram as modelos das propagandas de peças e pneus de automóveis – era um sucesso, mas pudicas se comparadas às de hoje. Tinha ainda uma ‘radiola’ onde ouvíamos os LP's (que coisa antiga) de Vinicius de Morais, João Gilberto, Roberto, Chico e Caetano. Acabei ficando ali por mais de uma semana com o pé todo inchado, doendo e suspenso por um lençol amarrado no caibro do telhado. Se não fosse minha Tia Losa, irmã de minha avó Lilita, e da minha prima Célia, filha de meu Tio João, eu estaria era frito! Elas cuidaram de mim até que eu pude andar e voltar com Tia Losa para Salvador. Geraldo, para fugir da gozação gerada pelo desmaio, também veio. Passada a raiva do velho Agnelo, voltamos alguns dias depois, no navio João das Botas, disputando partidas de ‘palitinho’ apostando cervejas POP 70 e Malte 90 no bar do navio. Mais isso já são outros quinhentos!
A Regata Aratu Maragojipe é um sucesso indiscutível! Realizada no dia 29/08/2009, esse ano comemorou a 40ª edição e teve como tema o Carnaval – confesso que, a princípio, achei esquisito ver caretas na ponte do Cajá. Se a ideia era an...
A Regata Aratu Maragojipe é um sucesso indiscutível! Realizada no dia 29/08/2009, esse ano comemorou a 40ª edição e teve como tema o Carnaval – confesso que, a princípio, achei esquisito ver caretas na ponte do Cajá. Se a ideia era animar ainda mais a festa e atrair público, não carecia. Ninguém dava pelotas para elas. Eram como peixe fora d’água.Nunca vi tanta gente na regata como nesse ano. Com certeza a presença do velejador Torben Grael – que com Memeu no comando do Saveiro Ideal chegou em segundo lugar – Bel Borba e Jerônimo contribuiu para o sucesso. Sem dúvida concorreu com a Lavagem – ocorrida uma semana antes – como o ponto alto dos Festejos em louvor a São Bartolomeu, o padroeiro de Maragojipe. O ganhador (fita azul) da regata foi o Saveiro Rompe Nuvem, que em feito épico deixou em segundo o campeão olímpico.
São Pedro está de parabéns. Não fez das suas como no ano passado. Esse ano brindou a todos que aguardavam na ponte do Caijá a chegada da primeira embarcação com um sol forte e um céu azul e sem nuvens – fazia 29 graus à sombra. É ou não é um inverno de matar qualquer um de inveja? As embarcações apontavam nas Ilhas do Francês e do Medo com suas velas estufadas pelo vento e logo enchiam de beleza a imensa Baía de Iguape. Velas coloridas de todos os tamanhos.
A ponte do Cajá – antes o local era chamado Caijá, segundo dizem os mais velhos, coisa que eu não sou, por causa dos escorregões que as moças levavam nos paralelepípedos do calçamento, o que nunca pude confirmar a veracidade – estava inteiramente tomada em toda a sua extensão. A baía, imensa, parecia pequena tal a quantidade de veleiros, lanchas, escunas, iates belíssimos, saveiros, catraias, canoas e até jet sky.
Até a “Praia de Copacalama” – hoje sem ter mais a areia branca trazida da Barra do Paraguaçu – estava cheia de gente na parte de areia que sobrou, pois está novamente coberta pelo manguezal original, o que é para se comemorar e cujo mérito cabe à Fundação Vovó do Mangue.Sem dúvida a maior surpresa da Regata foi a chegada da caravela Príncipe Regente tocando As Quatro Estações, de Vivaldi, e com alguns tripulantes a caráter. Imitando Cabral aportaram com presentes para os ‘nativos’. Deram-se mal! Com tantas modernidades eletrônicas os ‘nativos’ – ainda que descendentes dos Aimorés que habitaram aquelas terras – fizeram pouco caso dos espelhos, colares e apitos. Da proa da caravela Edilson – eufórico e empolgado pela festa e pela cerveja gelada – ostentava a camisa da 1º Festival Nautico Gastronômico da Bahia, a ser realizada em janeiro de 2010, e que já conta com vários incentivadores, especialmente a Fundação Vovó do Mangue. Como Maragojipano adora apelidar tudo, essa nova regata foi batizada de Regata da Moqueca. À noite, a Novena que encerrou os festejos foi concorrida e demorada – que me perdoem os devotos de São Bartolomeu, mas exageradamente demorada. Se duvidar até morcego dormiu. Chegamos, Eu, Ângela e Reis – Gó já estava no Coral – um pouco depois das 20 horas. Maria Alice – Professora Maria Alice! Quem não conhece! Respeitada e resoluta não titubeia, manda nos padres, nas beatas, nos coroinhas e em quem mais estiver pela frente. Esposa do meu falecido Tio Benedito – tinha reservado duas cadeiras em frente à sacristia e próximas do altar para nós. Assim que nos viu veio ao nosso encontro e nos conduziu igreja adentro com passos firmes, altiva e célere até o local reservado. Velhinhas e Velhinhos contritos nos fulminaram com o olhar severo e ameaçador quando fiz menção de sentar-me. Devem ter pensado: como pode esse herege vir sentar-se aqui se vários de nós estamos sem lugar e em pé? Temeroso do desfecho dessa epopéia, cuidei de tramar de logo uma saída estratégica! Afinal, se já não era minha intenção ficar ali por muito tempo, com aquela recepção... Aproveitei o momento em que os celebrantes em êxtase estavam chegando. Quando vi a movimentação intensa e os cânticos eufóricos do coral e dos fiéis me interessei em ver o que estava acontecendo. Para a minha surpresa não era apenas o Padre Matheus que chegava, mas três padres. Vieram de turma: Padre Matheus, Padre Reginaldo e mais um que não reconheci, mas que soube ser de fora; quatro coroinhas, inúmeras beatas e mais as integrantes da comissão da festa. Com Maria Alice na frente! Padre Reginaldo não se continha. Caminhava lentamente distribuindo acenos e afagos aos fiéis mais próximos. Era uma celebridade.
A hora era aquela! Não titubeie. Tratei de escapulir dali sem ser notado – que sacrilégio! Gentilmente cedi minha cadeira para uma senhora que passou na minha frente e se postou ao meu lado, contrita e vigilante. Sem alarde corri em direção à sacristia e quase atropelo mais três fiéis que dali assistiam a Novena embevecidos. Tenho que reconhecer que a devoção do povo de Maragojipe a São Bartolomeu é inigualável. Dei a volta na igreja e fui para o átrio. Quando eu morava ao lado da igreja, no início da Ladeira do Areal – também conhecida como Ladeira do Cinema, pois ali ficava o cinema de Osvaldino – costumava ir às missas da noite para ver soltarem os foguetes e correr atrás das flechas – não sei nem mesmo me lembro para que serviam, correr atrás já era uma festa. Hoje não tocam mais foguetes para evitar danos nas casas vizinhas. Soltam apenas rojões de 12 tiros que estouram sobre nossas cabeças num barulho ensurdecedor. Em Maragojipe os morcegos da igreja, além de naturalmente cegos, devem ser surdos Nunca vi uma Novena tão demorada. Só foi terminar às 23 horas. Também, com tantos padres e ajudantes, não era para menos. Muitos fiéis já vencidos pelo cansaço dormiam nos bancos da igreja, e os jovens, que não escondiam a angústia e a impaciência, aguardavam sem disfarçar a ansiedade pelo show de Margareth Menezes – sim, teve também atração musical o mês inteiro, afinal, sem pecar não se vive!A saída dos padres e seu séquito pomposo puseram fim à Celebração. Saíram pela frente da igreja e a contornaram para voltar pela sacristia. Nessa altura o Show de Margareth Menezes já estava balançando o coreto da praça... Ângela e Gó já estavam ensaiando os passos de dança e eu começando a temer por minha sorte de dançarino que só balança feito Mané Gostoso e não sai do lugar. Felizmente São Pedro olhou por esse pobre coitado ateu e mandou uma chuva forte para me salvar... Corremos para nos abrigar ao lado da igreja, mas não teve jeito, a chuva era forte e fiquei todo encharcado, mas pelo menos salvo do fiasco de ser tachado de pé de chumbo e cintura dura.
Confesso que este ano fiquei nostálgico e lembrei-me de quando com os amigos – Tios e Primos também – navegávamos pelos quatro cantos da Baía de Iguape em Maragogipe - ops!, olha a confusão, até hoje não consegui saber ao certo se Maragojipe é com J ou G. Eram férias inesquecíveis aquelas de 1969 a 1974. Não faltará oportunidade de relembrar
Estrear é sempre difícil. Seja onde for. No palco, na vida ou em um blog. Para começar, ficamos perdidos entre tantos assuntos que nos aparece e sobre os quais queremos comentar, falar, criticar, ou mesmo ignorar. Economia, política, justiça, a todo o ...
Estrear é sempre difícil. Seja onde for. No palco, na vida ou em um blog. Para começar, ficamos perdidos entre tantos assuntos que nos aparece e sobre os quais queremos comentar, falar, criticar, ou mesmo ignorar. Economia, política, justiça, a todo o momento temos um tema novo batendo a nossa porta. Enfim me decidi! Caminhava cedinho na orla do Jardim de Alah – não digo o horário para que não me tachem de mentiroso empedernido – quando notei o vento forte daquele início de manhã em luta com um alto coqueiro.
Não parei. Continuei andando e pensando – aliás, creio que é só o que fazemos quando caminhamos na orla de Salvador tendo ao lado o mar de Armação calmo ou revolto azul escuro ou claro e tendo ao horizonte o sol que nasce amarelo ouro forte e vibrante – quando me veio a imagem de quanto é forte a raiz daquela planta, enfim de como é forte uma raiz qualquer.
Isso me levou a tomar uma decisão. Estrearei meu blog falando de minhas raízes. De minhas raízes fincadas na cidade de Maragogipe, no Recôncavo Baiano! Uma cidade pequena, calma e silenciosa no estuário do Rio Paraguaçu e no encontro deste com os Rios Capanema e Guaí. A cidade conta com pouco mais de 40 mil habitantes e distante apenas 133 km de Salvador. Terra dos inesquecíveis Mister Eco, Osvaldo Sá – poeta, escritor e rábula respeitado – e de Zé Trindade, Maragogipano por afinidade, que para os quatro cantos do mundo cantaram as loas de sua terra. Lá, na casa da Câmara, se hospedou o Imperador Dom Pedro II, quando esteve no Recôncavo Baiano para a inauguração da ponte que leva seu nome e liga Cachoeira a São Felix.
O extenso manguezal de mais de 30 km e a Baía de Iguape, no fundo da Baía de Todos os Santos, surpreende e deslumbra qualquer navegante, por mais disperso que seja. A Regata Aratu Maragogipe – conhecida internacionalmente e que faz parte das comemorações do Padroeiro da Cidade, São Bartolomeu, cujo dia é 24 de agosto. Durante todo o mês de agosto se celebra a festa de São Bartolomeu – leva àquele recanto belo e calmo várias embarcações, de todo o tipo, inclusive de grande porte. O ponto de chegada é na Ponte do Caijá, hoje sem uso, pois a navegação regular para Salinas das Margarida, São Roque e Salvador deixou de existir.
Ao apontarem na Ilha do Medo e adentrarem a Baía de Iguape, os velejadores ficam deslumbrados com a imponência daquela baía imensa interior com seu entorno emoldurado pelo magnífico manguezal totalmente recuperado, graças à incessante atuação firme e contínua da ONG Vovó do Mangue – conduzida por Edilson Barbosa de Souza com dedicação messiânica. Por aquelas águas calmas navegaram por muitos anos os navios João das Botas e Paraguaçu. Saíam de Salvador às 15h e retornavam de Maragogipe no dia seguinte às 5h. Já houve época da navegação ir até Cachoeira. Eram tempos áureos, com a pujança da indústria de fumo e o comércio pelos Saveiros da Baía, onde imperavam as fábricas de Charutos Suerdieck, Dannemann e Pimentel – instaladas em Maragogipe, São Félix Muritiba e Cruz das Almas.
Quando eu morava em São Roque e meu pai vinha trabalhar em Salvador pelo Rio Paraguaçu, eu, ainda muito pequeno, tinha cinco anos, ficava com ele na estação de trem, que terminava no porto de São Roque, aguardando o navio chegar. Chegávamos por volta das cinco da manhã. Às vezes a neblina era tão densa que não dava para atracar. Os passageiros eram levados de canoa até o navio, que ficava parado no meio do Rio. Somente os raios da lua eram capazes de atravessar a neblina e marcar de prata as águas escuras do rio, onde grupos de botos brincavam sem parar em volta da embarcação. Podíamos ver raias e águas vivas enormes. Muito lindo! Hoje já não temos mais esse espetáculo. A poluição, a Barragem de Pedra do Cavalo, que interrompeu o curso do Rio Paraguaçu, e a pesca predatória modificou a vida marinha. Ali estudei até a alfabetização. A melhor festa era o São João. Uma grande fogueira era providenciada por meu pai e ‘armada’ pelo meu Tio Jorge na porta de nossa casa na Ladeira da Igreja. Era um sucesso! Muitos fogos e muita ‘espada’.
Em seguida fui morar em Muritiba, mas de Maragogipe nunca me afastei. Estava sempre lá no São João e São Pedro, com sua incomparável ‘guerra de espadas’, e no Carnaval, das festejadas e belíssimas Caretas, (veja vídeo aqui) transformadas em Patrimônio Imaterial da Bahia – e na Festa de Agosto. Ali tive minha primeira namorada. É certo que ela nunca soube disso e nem me recordo do seu nome. Era uma festa de São João da escola e ela, par comigo na dança da ‘quadrilha’ – não confundir com as de hoje, e muito menos com as do congresso, segundo o MPF – tentava, desesperadamente e sem sucesso, me fazer dançar. Coisa que até hoje ninguém teve muito êxito, pois sou tão duro quanto um poste, e no máximo sou arrastado e balanço meio sem jeito. Entre 1972 e 1974 – adolescência e juventude – fiz muitos e grandes amigos.
Nossos encontros ‘culturais’ no Senado da Praça para discutirmos política, cultura, livros, filmes e jornal varavam a noite regados a cerveja Carslberg, POP 70 e Malte 90, preferidas de Gutinha e Geraldo (meu tio, apenas um pouco mais velho) e que eu chamava de Mate 90, tal a dor de cabeça dos diabos que me dava, ‘Cuba Libre’ (aceita por todos, e feita com Ron Bacardi ou Ron Montilla), camarão seco e picolé do Bar de Chichico. No caso de Maragogipe, varar a noite significava ir até 22 horas, é bom que se diga, pois meu Avô, Agnelo Laranjeira, era implacável. Com ele não tinha conversa.
Foi naquele período que, mais por pilhéria que por rebeldia, criamos uma ‘folha’ – Eu, Geraldo (meu tio), José Lacerda (alto funcionário do Baneb, empertigado como um lorde), Estrela (Jorge Lacerda), Benedito Cusparada, Messias (músico de mão cheia), João de Tote, Gutinha e Dido (meus primos) – que denominei de A Besteira! Assim mesmo, com exclamação, tamanhas eram as sandices e verdades rocambolescas que publicávamos mensalmente em uma folha de papel ofício (frente e verso) reproduzida no mimeógrafo a álcool, peça de museu que era a nossa salvação. Quando ingressei na faculdade, e já todos estavam com suas vidas ganhando rumo, fui me afastando de Maragogipe, mas sem esquecê-la!
São profundas e belas as raízes que marcam nossa existência. Tenho muito mais para contar. Do catecismo com Padre Florisvaldo (por pouco não me excomungou, mas fui salvo por Sergio, que assumiu ter colocado a bomba na boca do dragão de São Jorge e ter escondido o turíbulo e o incenso da missa); das guerras de pistolas de bambu; das pescarias de canoa na baía de Iguape; nos banhos de mar na praia de ‘Copacalama’; nas travessias do Rio Paraguaçu; nas viagens de navio; das Festas nos Distritos de Nagé e Coqueiro.
Não vai faltar assunto.